A pressão no crânio é um dos principais sintomas de cefaléia pós-raquianestesia. A anestesia raquidiana é realizado aplicando-se  o líquido em um pequeno espaço da meninge. A partir daí, a pressão exercida no sistema nervoso passa a coordenar a pressão intracraniana.

Para entender melhor a causa do problema, vamos explicar do que se trata a raquianestesia. Portanto trata-se de uma injeção contendo anestésico, aplicada no canal raquidiano. Esse procedimento é realizado com a finalidade de suprimir a sensibilidade da parte inferior do abdômen e também dos membros inferiores.

Esse pequeno furo provocado pela agulha cria uma passagem para o líquido cefalorraquiano vazar para fora do canal medular, reduzindo a pressão do fluido ao redor do cérebro e da própria medula espinhal. Dependendo da quantidade vazada, o paciente pode desenvolver uma hipotensão liquórica, que provoca sintomas, como dor de cabeça, fraqueza, tonturas e náuseas. É um tipo de cefaleia de baixa pressão.

Dr. Márcio Silveira: Ortopedista Especialista em Traumatologia Esportiva, Joelho - Adulto e Infantil - e Idoso anestesia espinhal

O que é a cefaleia de baixa pressão?

O líquido cefalorraquidiano (LCR), também chamado de líquor, é um fluido transparente, com volume total de cerca de 150 ml, que ocupa o espaço subaracnoide e fica circulando em volta do cérebro e da medula espinhal, servindo como uma espécie de amortecimento contra traumas para essas duas estruturas.

O espaço subaracnoide é a região que fica entre as membranas aracnoide e pia-máter, que são duas camadas das meninges. A pressão do LCR dentro do espaço subaracnoide, conhecida como pressão liquórica, é 10 a 20 cmH2O quando o paciente está deitado e de 20 a 30 cmH2O quando o paciente está em pé. As cefaleias de baixa pressão ocorrem quando, por algum motivo, há extravasamento do LCR e queda dos valores da pressão liquórica.

A hipotensão liquórica provoca várias alterações na circulação cerebral, incluindo dilatação das veias intracranianas e das meninges, flacidez das estruturas intracranianas e estiramento dos nervos intracranianos sensoriais. Como resultado, o paciente desenvolve os sintomas da síndrome da hipotensão liquórica.

Fatores de risco

Algumas pessoas parecem ser mais susceptíveis ao desenvolvimento de cefaleia de baixa pressão. Os principais fatores de risco identificados nos estudos são:

  • Sexo feminino: o risco é 2 a 3 vezes maior nas mulheres;
  • Gravidez: os elevados níveis de estrogênio circulante na gravidez fazem com que as grávidas tenham uma pressão liquórica mais baixa que o habitual. Por outro lado, durante o trabalho de parto há um aumento da pressão do líquido cefalorraquidiano, o que facilita o seu extravasamento após a realização da anestesia;
  • Histórico de dor de cabeça: pessoas que já têm um histórico de cefaleias primárias ou secundárias estão sob maior risco;
  • Idade: as cefaleias de baixa pressão são mais comuns em pacientes com idades entre 18 e 50 anos;
  • Índice de massa corporal (IMC): pessoas mais magras, com IMC menor 25 kg/m², parecem estar sob maior risco;
  • Desidratação: pacientes que encontram-se desidratados no momento do procedimento ou no pós-operatório também tem mais chances de desenvolver cefaleia espinhal.

Tipo de agulha

Quanto mais calibrosa for a agulha, maior será o furo deixado por ela na meninge e, consequentemente, mais tempo levará para o organismo conseguir fechá-lo. Além do tamanho, o tipo de agulha também tem influência no orifício produzido, como podemos ver na imagem abaixo. As agulhas do tipo ponta de lápis (Whitacre ou Sprotte) são atualmente as mais indicadas.

Dr. Márcio Silveira: Ortopedista Especialista em Traumatologia Esportiva, Joelho - Adulto e Infantil - e Idoso agulhas anestesia

O número de punções também é importante. Quanto mais tentativas frustradas de punção forem feitas, maior é risco de haver extravasamento relevante do líquor.

Sintomas

A cefaleia pós-raquianestesia é uma dor de cabeça que inicia-se entre 6 e 72 horas após a punção lombar ou procedimento anestésico. O quadro costuma ser mais intenso quando a cefaleia inicia-se já nas primeiras 24 horas.

A dor de cabeça é tipicamente frontal, latejante e pode ser bastante intensa. A sua principal característica é tornar-se mais forte quando o paciente fica em pé e aliviar quando ele se deita. Deitar com a barriga para baixo costuma ser a forma mais eficaz de aliviar a dor. Em alguns casos, a cefaleia é tão intensa, que o paciente só consegue tolerá-la se ficar o dia inteiro deitado, às vezes até com a cabeça pendendo pra fora da cama, abaixo do nível do corpo.

Sintomas associados ocorrem em até 70% dos casos e podem incluir náuseas, rigidez de nuca, dor lombar, vertigem, alterações na visão (visão dupla, visão turva ou fotofobia), tontura ou distúrbios auditivos (zumbidos e perda auditiva). Alguns pacientes sentem fraqueza intensa e sensação de colapso iminente quando ficam em pé por algum tempo. Há casos em que uma simples ida ao banheiro para urinar pode ser bastante dolorosa, principalmente nos homens, que urinam em pé.

Sem tratamento, a maioria dos casos melhora dentro de uma semana (média de 4 a 5 dias), mas há pacientes que demoram até 15 dias para ficarem completamente sem dor.

Tratamento

O tratamento da cefaleia pós-raquianestesia depende da gravidade da dor e do seu impacto na qualidade de vida do paciente.

Os pacientes que toleram ficar em pé e conseguem realizar suas atividades da vida diária apresentam um quadro leve e podem ser tratados apenas com analgésicos simples por via oral, como o paracetamol ou a dipirona, hidratação e repouso na cama, conforme necessário.

Nos casos mais graves, quando o paciente não consegue sair da cama, o tratamento deve ser feito com hidratação vigorosa e cafeína. Se o paciente ainda estiver internado, soro fisiológico, cafeína e analgésicos por via intra-venosa costumam ser utilizados.

Os pacientes que desenvolvem cefaleia depois de terem tido alta hospitalar devem beber muitos líquidos, pelo menos 2,5 litros por dia, incluindo aqueles ricos em cafeína, como café, refrigerantes ou energéticos. Analgésicos por via oral de 6/6 ou 8/8 horas e repouso na cama por pelo menos 24 a 48 horas também estão indicados.

Tampão sanguíneo epidural

Se a dor de cabeça não apresentar algum grau de melhora após 24 a 48 horas, o tampão sanguíneo peridural pode ser utilizado. Esse procedimento consiste na injeção de cerca de 15 ml de sangue do próprio paciente no espaço epidural, de forma a estimular a formação de um coágulo em frente ao orifício por onde o líquor está extravasando.